“O que de pior acontece de momento é que só há tempo ou velocidade ou passagem do tempo, mas não há espaço. É preciso criar espaços e ocupá-los, contra esta aceleração. Só daí pode vir a cultura – ou qualquer forma nova de tragédia – de um espaço que reaja à ditadura do tempo sem tempo, e que só pode ser um espaço dos vencidos: os vencedores nunca produziram cultura.”
Heiner Müller
É da procura de um espaço que nasce a Casa Conveniente quando, em 1992, Mónica Calle ocupa um rés-do-chão do Cais do Sodré cedido pelo Sindicato dos Estivadores e estreia a Virgem Doida, a partir de Rimbaud. Monólogo-strip-tease, manifesto fundador, o espectáculo firma a premissa de um teatro despojado e assente na palavra, na proximidade, na partilha. E cria uma nova relação com o espaço teatral, enquanto edifício e espaço dramatúrgico – onde as limitações se convertem em força geradora de estéticas, e em construções cénicas sempre recomeçadas, numa constante experimentação das capacidades dramatúrgicas inerentes.
A Casa Conveniente será ainda o laboratório de uma reflexão sobre as relações entre interior e exterior, consciência e mundo, tempo do teatro e tempo da rua. No Cais do Sodré todos têm os seus lugares: bares, prostitutas, clientes, actores, actrizes, espectadores – todos coexistem sem se misturarem, marcando diferenças e aceitando vizinhanças e influências.
Até ao final da década de 90, a Casa Conveniente é marcada por espectáculos no seu espaço próprio - Menina Júlia (1993), Jogos de Noite (1994) a partir de Stig Dagerman, Os Dias que nos Dão (1999) de Luís Fonseca - e fora dele: Crónicas (CCB,1997) a partir António Lobo Antunes, Os Paraísos do Caminho Vazio de Rosa Liksom (Culturgest,1998).
Após 2000 criam-se condições para começar a estruturar uma equipa e intensificar as actividades. A Mónica Calle e ao dramaturgo Luís Fonseca, juntam-se as actrizes Ana Ribeiro e Mónica Garnel, integrando espectáculos como Bar da meia-noite (2000), Três Irmãs - que importância é que isto tem? (2002) ou Um Dia Virá (2003). Em paralelo, Mónica Calle continua a interrogar as estéticas de recepção, numa reflexão de que serão paradigmáticos Rua de Sentido Único (2003) e Lar Doce Lar (Festival WAY, 2006) – monólogos para dois, e um espectador, respectivamente.
Esta consolidação de estrutura permite ainda sua abertura sistemática a entidades emergentes, numa filosofia que perdura até hoje. Desde 2001, a Casa Conveniente co-produziu ou acolheu dezenas de projectos de criadores “sem tecto”, como Amândio Pinheiro, André e. Teodósio, Teatro Praga, Teatro Mosca, Primeiros Sintomas, Teatro do Vestido, Cristina Carvalhal, Rogério Nuno Costa, Martim Pedroso, Miguel Bonneville e, mais recentemente, Miguel Loureiro, David Pereira Bastos, Bruno Simão ou o Teatro do Eléctrico.
2004 marca uma nova viragem, com a mudança para outra rua do Cais do Sodré. As obras de remodelação da antiga discoteca Lusitano, executadas pela própria equipa artística, dão lugar a um espectáculo-limite: A Missão. Criada a ligação umbilical ao novo espaço, Calle continua a estabelecer uma interacção privilegiada com a palavra, ponto de partida de toda a construção imagética e cénica, na abordagem de autores contemporâneos como Peter Handke em Luz/Interior (2004) com Rita Só, ou Thomas Bernhard em Comédia ou a Força do Hábito (2008) e Minetti ou Um Retrato do Artista Quando Jovem; e no trabalho de desconstrução/reconstrução dos clássicos, como em
A Última Ceia ou sobre O Cerejal (2007), a partir de Tchékhov.